Concurso de Contos - O Desassossego da Liberdade Parte IV

janeiro 09, 2015

Há uns meses participei num concurso fantástico através no Blog BranMorringhan e a editora LivrosdeOntem, pelo seu 6º Aniversário. Como não faço parte dos vencedores, decidi publicar por aqui o conto - em partes para que não fique grande. Cliquem nos links, verão que vale a pena!

♣ Ler a 1ª Parte aqui.
♣ Ler a 2ª Parte aqui.
♣ Ler a 3ª Parte aqui.

♣-♣-♣
O dia parecia demasiado lento para Clara. As malas não acabaram nunca, o horário movimentava-se demasiado devagar e o senhor nunca mais chegava. A ansiedade queria matá-la, mesmo antes de conhecer qualquer coisa.
Mas Clara tivera calma, atenção e sentia aquele friozinho na barriga a ouvir todas as condições que deveria cumprir a cada dia que permanecesse naquela casa: sem internet, sem telemóvel e sem televisão. O computador fazia parte das coisas que estavam proibidas. A sua máquina fotográfica era apenas o seu olhar, ou pequenas folhas de papel e lápis disponíveis na velha secretária que permanecia num quarto mágico, no andar de cima.
Era aí que ela agora estava, a observar o vento que soprava a chuva lá fora. Não se importava com o pequeno diário que teria de fazer, com as pistas que iria obtendo do advogado.
Hoje não havia pistas, era o momento de descontracção. A roupa estava guardada lá no quarto, umas quatro paredes vazias, uma escrivaninha morta junto de uma cómoda para arrumar a roupa. Uma cama de solteira com roupa quente para aquecer durante a noite e nada mais. Era pela simplicidade que este pequeno canto no meio do nada a alegrava. Diferente de tudo o que vivera, não se sentia presa aos dias, mas livre pela magia das horas. Principalmente agora que via o nada ser transportado pelo vento.
- Era tão bom que houvesse música a acompanhar este momento... – Suspirou ela, aconchegando-se mais ao cadeirão que a embalava. Sentia-se tão vazia de tudo, tão cheia de si que acabou por adormecer. Não estava cansada, porém o seu corpo necessitava de repouso. Era necessário muita energia para encontrar-se no meio da enchente da vida.
Um barulho proveniente do lado de fora da casa despertou-lhe os sentidos. Observou o relógio, nem vinte minutos tinham passado desde que ela se sentara ali, a observar a paisagem. O que seria?
Pé ante pé, desceu as escadas redondas para o andar debaixo. Era uma casa pequena, perfeita para sair de um mundo cheio de tudo e preencher-se da natureza que a rodeava.
Abriu a porta, observou com cuidado e não encontrou nada. Ela achava estranho, pois o som parecia ter vindo daquela zona. Deu a volta ao local, sem que encontrasse nada.
Talvez tivesse sido apenas um sonho. Pensou, ao entrar novamente na casa. Subiu as escadas e voltou a sentar-se no cadeirão. Nada parecia ter mudado, não fosse o facto de Clara se sentir apreensiva. Algo lhe dizia que aquele ruído que a acordara era real.
Um novo som se fez ouvir, só que desta vez vinha do interior da casa, no andar debaixo. Teria deixado entrar algum animal quando procurava lá fora pela origem do barulho?
Desceu as escadas numa correria, o som provinha da cozinha. Sacas encontravam-se no chão, pedaços de comida espalhados por toda a parte e um pequeno gato estava em cima da bancada – parecia estar a comer alguma lambarice que sobrara do ataque.
Clara calcou alguma coisa, pois os seus olhos observaram-na com atenção. Num espaço de segundos o bicho correu, ouviu-se o miado por toda a casa, como se estivesse a encontrar algum lugar onde escapar.
- Por onde andas, pequenino... – Tentava ela encontrá-lo, sem sucesso. Era um perfeito silêncio que se fazia por toda a casa, não fosse o som do vento que uivava lá fora. Desistiu.
Bem, não completamente… Um pequeno prato de leite se fez nascer no chão – depois de estar tudo arrumado – e uma pequena toalha estava no chão, para que o felino o usasse.
Ela nem dera pelo tempo passar, a noite já chegara e o sono parecia pouco, mas presente. Tomou banho, depois de aquecer o ar da casa com uma pequena lareira no salão do andar de cima. Relaxou na água morna, sentiu-a sobre a sua pele e suspirou ao ritmo da música que os seus lábios imaginavam. Sentia-se completa com o silêncio e, apostava ela, o silêncio sentia-se completo com ela.
Abriu a boca, quando ainda estava a vestir o seu pijama quente. As cobertas chamavam por ela como o Outono chamava a chuva. Aconchegou-se na cama fresca e lavada, deixou-se ficar pelo som do ambiente que vivia loucamente lá fora e deixou-se adormecer.
Amanhã seria o primeiro dia de muitos, cheio de emoções.
Fosse qual fosse a hora – Clara nem vira o relógio – ela estava de pé, pronta a investigar a sua teoria. O gato bebera todo o leite? Ainda estava adormecido pela cama arranjada?
Passo a passo, como se fosse lã, Clara tentou resgatar o seu novo amigo da armadilha que preparara. Porém, não o pôde fazer. Não havia rasto do leite que deixara lá no dia anterior, o que a fez sorrir de prazer. A cama arranjada estava intacta, nem sequer experimentara a toalhita. Por onde teria dormido?
Deixou-lhe um pouco mais de leite e decidiu investigar um pouco as redondezas. Pela viagem que tivera, acreditava que era perto daquela outra colina que visitara quando uma inspiração lhe apertou o coração. O homem viveria por perto? Seria interessante continuar a conversa de loucos que estavam a ter…
Continua...

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