Conto de Halloween 2014 - O sopro da paz: Parte II

novembro 07, 2014

Leiam primeiro a 1ª Parte aqui!
Seu corpo voltou-se para a porta da morgue. Henrique queria sair dali a correr, sem que ninguém notasse a sua aparência. Observou as roupas do homem, infelizmente encontravam-se cheias de sangue. Será que haveria algum cacifo perto para que conseguisse raptar algumas roupas?
Saiu pela porta, ignorando o silêncio que provinha da sala de onde tinha acabado de sair. Com o bisturi no bolso e a sua roupa praticamente limpa, seguiu rumo a um corredor que não tinha notado existir antes.
- Ah! Ah! - Sorriu ele, enquanto via finalmente uma sala fechada destinada 'apenas a funcionários'. Abriu a porta e entrou, fechando-a de seguida.
- O que está aqui a fazer? - Perguntou-lhe uma mulher, parcialmente vestida. A sua mão apertou a arma branca no seu bolso.
- Estou perdido. Sinto-me confuso. - Sentou-se para ser mais realista. - Não sei como cheguei aqui.
- Está tudo bem. - Ela aproximou-se, tocando-lhe no ombro. Henrique tentou não sorrir, mas sem sucesso. A mão da mulher afastou-se de imediato. Tentou gritar, mas as mãos dele foram mais rápidas. Era uma boca suave que tentava ecoar algum som, um nariz que começava a reclamar por ar. Um par de mãos que batiam freneticamente sobre as suas costas, unhas que tentavam arrancar um pouco dele - talvez numa esperança de se libertar.
- É tarde demais, minha querida. - Ele sorriu, enquanto via os seus olhos lutarem numa tentativa de se manter consciente. A suas mãos baixavam-se lentamente, perdendo parcialmente a sua força. Brevemente ela morreria.

Foi apenas num espaço de segundos que tudo acabou. Um bolso que ficou vazio, um bisturi que atingiu uma artéria e que brevemente encheria o chão por completo.
- Gostas do que vês, não gostas? - Sorriu-lhe... - Eu sei o que é ser-se cheiro de sangue. Já o vivi imensas vezes. Queres sê-lo agora?
Não, não era Henrique que detinha aquele pedaço de metal. Aquela mulher parecia ter bem mais na sua manga do que se esperava. Quem era ela, como conseguira domar e matar aquele que quase a matara?
- Não... - Foi num sufoco que ele tentou falar. Ela aproximou-se.
- Fala mais alto que não te ouço. - Observou o relógio. - Mais uns segundos e irás desta para melhor. Precisarás de sangue, se prometeres portar-te bem. - Ela sorriu. - Gostei de ti, és divertido.
Ele tentou seguir os seus movimentos, mas a sua mão no ferimento tentava estancar o sangue e Henrique não acreditava que tivesse forças para mais alguma coisa. Iria morrer, e nem se importava com isso. Fechou os olhos e deixou-se ir. Que fosse o fim, então. Foi tudo o que ele conseguiu pensar, até deixar de se sentir.

O ruído de uma máquina, coordenada com uma pulsação ritmada ecoavam pelos seus ouvidos. Não teria morrido?
Sentiu um peso sobre o local onde tentara estancar o sangue, abriu os olhos com cuidado e viu-a.
- Finalmente acordaste, querido. - Sussurrou ela, piscando-lhe o olho. - Se te portares bem e contares à polícia como foste atacado por um assassino fugitivo irreconhecível, podemos safar-nos desta.
Safar-nos? Pensou ele, ao mesmo tempo que seus lábios iam perguntar-lhe. Os dedos dela fecharam-lhe a boca, para que não falasse.
- Eles se te ouvirem virão fazer perguntas. - Sorriu-lhe. - Espera um pouco, que logo arranjaremos uma versão confiável com as câmaras de segurança. - Bufou. - E não, não podes matar-me.
Ele procurou algo que pudesse utilizar para matá-la, mas os seus braços estavam agora presos pelos dela.
- Não aprendes? - A sua voz aumentou apenas um pouco, os guardas lá foram chamaram. - Espera um pouco, finge que dormes! - Disse ela, baixinho.
Ele fechou os olhos e ouviu a porta abrir-se.
- O senhor acordou? - Perguntou um homem de voz rouca, com autoridade.
- Não, desculpe... É que eu estava a falar com os meus botões. - Deu um risinho leve. - Não tinha intenção de o incomodar.

Henrique abriu os olhos, tentou levantar-se e o polícia parecia alterado. Estava prestes a informar o avanço dos factos no intercomunicador, até que o seu pescoço ficou partido. Aquela mulher o matara como se fosse apenas um espargo, partido para começar uma leve salada.
Fechou a porta encostada, pediu que ele se vestisse com a roupa do polícia e colocou o corpo sobre a cama.
- E agora? - Perguntou-lhe, ao fechar o casaco.
- Encontramo-nos lá fora.
- Achas que nos safamos desta?
- Não seria a primeira vez. - Ele sentiu-a gargalhar por dentro.
- Quantas vezes o fizeste? Afinal... Quem és? - Eram tantas perguntas que nem ele sabia por quais começar, e se queria saber as respostas!
- Sou o sopro da paz. - Seu sorriso travesso dizia uma coisa completamente diferente. - Temos de ir! - Calou-se, como se estivesse a organizar os seus pensamentos. - Encontra-te comigo na zona sul, primeira saída, no lado de fora.
- Não desconfiarão?
- Não importa. - Sorriu. - Um carro vermelho desportivo. - Bateu as palmas de leve. - Sempre adorei roubar um desses!
- Vais roubar um carro? - Ele sentia-se estupefacto.
- Vamos embora, daqui a pouco um novo turno começa. A polícia não tarda a mandar o substituto.
- Tens razão. - Abriu a porta, fechando-a depois. - Até daqui a cinco minutos. - Beijou-a, abriu a porta e saiu.
Dois, três passos e um grito ecoou do lugar de onde saíra. Tentou correr, conseguiu pensar que escaparia por segundos. Logo apareceram os seguranças, a polícia e todos o observavam com atenção. Um passo em falso e morreria.
- Socorro! - Gritou a mulher que, ainda há pouco, matara um homem. - Ele matou o polícia! O assassino matou novamente!
Ele tentou aproximar-se dela, apenas um disparo se ouviu, sobre a sua perna. Coxeou até ela. Conseguia ver o gozo que lhe trazia toda esta situação.
- Ele tem uma arma! - A sua performance de histeria era digna de um óscar!
Henrique levantou as mãos, antes que fosse baleado novamente.
- Eles descobrirão as tuas impressões digitais sobre o pescoço do homem. - Acusou-a.
- Ele é louco! - A mulher continuava com a farsa. - Levem-no para um hospício! - Colocou as mãos na cabeça e baixou-se, numa posição de defesa. Tentaram levantá-la, sem sucesso, ao mesmo tempo que injectavam algo no braço de Henrique. Mais uma vez, os seus sentidos se foram. Toda a realidade parecia não querer existir.
Eu disse-te que nos levaria daqui para fora... Henrique pareceu ouvir a voz da mulher, bem perto dele, antes da escuridão tornar-se vazio.

Por quanto tempo ficaria assim, nesse meio termo, à espera que o sopro da paz voltasse? Quando acordasse, logo saberia...

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