Conto de Halloween 2014 - O sopro da paz: Parte I

outubro 31, 2014

Foi nas primeiras horas que Henrique soube que algo mudara. Um dia como tantos outros, o sol continuava lá no alto e as horas passavam como sempre - tão devagar que parecia que a eternidade se tornava presente, um tanto envenenado. Estava cansado dessa rotina que o abraçava e, talvez por isso, nunca desejara tanto que algo atravessasse na sua frente e acabasse a sua vida. E isso quase aconteceu.
Os seus olhos fecharam por momentos, sentiu que poderia finalmente encontrar o seu fim. Aquele que tantos ateus dizem existir. O que será ser-se nada? Era isso que agora, depois de horas a fio pela cirurgia, ele pensava ser: um abismo. Aquele vazio que desejava preencher sem que nada o realmente acalmasse. Seria por estar há poucas horas acordado?
Sem que ninguém realmente parecesse importar - já que seus pés caíram no chão como dois sacos de cimento -, saiu porta fora. A picada no seu braço, bem como todo o barulho que o rodeava foram o bastante para que tudo se apagasse novamente. Qual seria a probabilidade que ele conseguisse escapar dentre os olhares atentos dos médicos?

O tempo parecia algo de outro mundo, pois logo os seus sentidos voltaram a si, bem como o profundo esvaziar que o preenchia. Levantou-se, mais uma vez. Ele sentia-se mais leve, apesar da dormência na ponta dos seus dedos. Retirou os fios dos seus braços e seguiu rumo à porta entreaberta. Encontrava-se um polícia sentado, bem próximo de si. Parecia entretido, nem reparara que ele estava a dar pequenos passos para um corredor qualquer. Finalmente libertar-se-ia das amarras que o deixavam por lá.
Flashbacks preencheram-lhe a mente, ao recordar-se do acidente que o autocarro tivera. Várias pessoas gritavam, algumas delas até chegaram a morrer. Ele nem sabia ao certo o que os atingira. Talvez tivesse sobrevivido, já que tudo parecia saído de um outro mundo. Será que estava morto?

Tentou encontrar a morgue, que parecia chamá-lo com uma curiosidade extrema. Abriu a porta, alguns dos corpos permaneciam disponíveis para que o homem - que de momento continuava concentrado, parecia estar a costurar um paciente - continuasse o seu trabalho enquanto ouvia uma música batida. Sim, porque Henrique conseguia ouvir a batida, mesmo com o seu espírito grogue e cérebro meio adormecido.
Aproximou-se, sem que o homem se voltasse. As suas costas pareciam perfeitamente alinhadas com a mesa que se encontrava à sua frente. Quanta concentração! Pensou Henrique. A sua mão segurou um objecto que permanecia na pequena mesa movível. O movimento captou o olhar do homem e os segundos pareceram nunca mais passar.
Um bisturi era o que detinha na sua mão, não uma linha. Não se sabe dizer qual dos dois ficou mais surpreendido, quando as mãos de Henrique passaram sobre aquele pescoço quente.
- O que estou a fazer? - Gozou Henrique. - Não queres perguntar-me mais alto?
O bisturi subiu um pouco, ele gargalhou ao mesmo tempo que o homem lhe abria um pequeno corte no antebraço. Um corpo que sangrava, outro que perdia a sua força. Um pequeno e doce ruído de um pescoço que se partia. Um corpo pesado que se fazia estorvo para um drogado que o empurrava até uma mesa livre. O seu corpo vestido caía pesadamente no chão, e a gravidade não ajudava. Henrique sentia-se irritado.
Deixou aquele corpo no chão e foi buscar o bisturi que ecoara no chão há tão poucos segundos. Ainda sentia a dormência nas suas mãos, aquela doce sensação que o preenchera parecia quase escassear agora. Juntou-se ao corpo escancarado no chão, abriu a sua bata, cortou um pouco das suas roupas e tentou sentir-se no aprofundar da lâmina sobre aquela pele quente e morta.
- O que diriam os deuses agora? - A sua gargalhada ecoou sobre o silêncio da morte. Seria ela a sua única companhia por toda esta noite?

Leiam a 2ª Parte aqui!

Como uma brincadeira nunca vem só... Quantos comentários merece a parte 2 deste conto para a próxima semana? Gostaram? O que acham que Henrique irá fazer?

You Might Also Like

0 comentários

Deixa aqui o teu pedaço!

Não te esqueças de deixar o link do teu blogue, caso tenhas, para te poder visitar!

E... Não te esqueças:
embarca pela minha loucura, sê-te tempestade de emoções!

Corações

Google+ Followers

Popular Posts