A Libertação

outubro 10, 2014

Eu conseguia ouvir a minha respiração, cada vez mais forte, enquanto corria pela floresta que se tornara a minha única salvação neste momento. A força humana torna-se curiosa, depois de tanta energia gasta, tantos sentimentos que nos cercam de medo e completa surpresa, conseguimos sempre avançar, ser livres! Ou, pelo menos é isso que eu estou a tentar fazer.
Vi a minha família a ser despedaçada mesmo em frente a mim, por um lunático que metera na cabeça que apenas seria ele o protagonista da minha vida. E o conseguiu, cada som que ouço enquanto continuo a correr, espero pelo momento em que ele aparece frente a mim e arrasta-me de volta para aquela gruta, afastada de todos.
Há uma semana que ando por aqui, já não existem mais lágrimas e o luto simplesmente fugiu. Não há nada, nada mesmo, que sobreviva a esta sensação de prisão imensa. Eu era normal, até que aquele idiota se lembrou de aparecer pela minha vida dentro.
Meus olhos permaneceram bem abertos quando, há pouco mais de uma semana, os meus pais e meu irmão se reuniram para a nossa última noite. Estava tudo tão bem preparado que muitas vezes penso se não deveria ter desconfiado de algo, resolvendo logo de uma vez por todas esta situação. Meu instinto tinha sido inteligente e eu burra, ao não dar-lhe ouvidos. Sempre que aqueles olhos pousavam em mim, todo o meu corpo se apreendia de uma forma bastante forte. Como se soubesse que aquele homem por perto só traria complicações.
Será que alguém me procurava no momento? Provavelmente não. Estava só, apenas aquele louco sabia que eu permanecia fora daquela casa que fez arder. Não tinham havido gemidos sequer, todos estavam mortos mesmo antes que isso acontecesse.
O que me persegue é muito mais do que apenas um homem. Vidas, mortes e consequências. É apenas isso que me mantém forte o suficiente para aguentar com tudo e fugir novamente. Ele merecia cada uma das atrocidades que passavam pela minha cabeça, talvez devesse voltar e tornar, cada uma delas, uma deliciosa realidade. Ele havia plantado em mim um monstro, e um monstro começara a crescer.
Fechei o meu punho ao sentir a sua presença mesmo na minha frente. Meu rosto estava fechado de emoções, algo que tinha aprendido muito bem durante todas estas horas.
- Olá querida, o que fazes fora de nossa casa a estas horas? – Perguntou-me ironicamente, via que mancava. Afinal de contas a faca tinha servido para alguma coisa, talvez a sua perna não fosse o suficiente para que tudo se resolvesse. Trataria disso mais tarde, agora vinham as consequências.
Ele me pegou pelo braço, apertando-o bem forte, seguindo de novo a trilha que eu tinha feito até aqui. Nunca mais abri a minha boca, desde que observei a minha infância, minha família, minha liberdade arder perante os meus olhos.
Sentou-me numa cadeira feita de madeira, injectando de novo aquele líquido que sempre me deixava completamente apagada. Pouco tempo depois tudo ficou escuro e apenas os meus pesadelos ficavam a rondar a minha mente…


Não sei ao certo quanto tempo fiquei apagada, muito menos o que teria feito desta vez para me castigar. Abri os meus olhos e vi aquele seu sorriso irritante, enquanto me pintava amarrada. Observei-me, deixando que a revolta dentro de mim voltasse novamente. Tinha-me apertado tanto os tornozelos que conseguia sentir a carne a pulsar sobre as amarras. Como sairia eu daqui?
- Vá, querida… Quero aquele belo sorriso que sempre usaste. Ficará bem aqui, eu prometo. – Disse, apontando alegremente para a tela. A minha resposta veio em saliva, atingindo-o apenas na mão. Nota: melhorar a pontaria.
Levantou-se irritado, abanando-me com dureza, proferindo palavras que era nem melhor ouvir. Senti-me uma inútil, apenas o meu olhar podia feri-lo. Riu-se de repente e eu estremeci. Quando ele ria daquela forma, sabia que as consequências seriam devastadoras.
A última vez que acontecera, o meu irmão estava a ser drogado para que perdesse a sua capacidade de defesa. Juro que quase consigo ouvir os seus gritos de dor quando era desmontado com um machado mesmo há minha frente. O seu sangue se juntara ao dos meus pais, que tinham sido simplesmente silenciados sobre amarras e esfolados vivos. O que poderia eu ter feito? Tentei erguer-me mais uma vez, sem sucesso. Tudo era passado, apenas eu estava agora aqui.
Ele estava a libertar-me, eu ainda não tinha todos os meus membros em completa sincronização por causa daquela sua brilhante ideia de me manter inconsciente. Tentei mais uma vez fazer algo, como levantar-me ou deixá-lo cair no chão. Sem sucesso.
Meu corpo era levado como um fantoche para a cama que ele tinha preparado para nós, seguiu rumo ao fogão a gás, procurando algo pela caixa que tinha trazido. Eu apenas olhava, tentando de uma certa forma sair sem que ele desse conta, o que era quase impossível tendo em conta a quantidade de vezes que ele me olhava. Numa última tentativa, suspirei e voltei a conseguir aguentar com o meu corpo em pé, agarrando-me firmemente ao quadro que ele tinha acabado de desenhar.
Seus olhos furiosos queriam vir até mim, eu apenas gritei com raiva, rasgando em pedaços aquele papel, tal como ele fizera com a minha família. Aproximou-se de mim com uma faca que tinha nas mãos, deixou-a perfurar-me bem firme sobre o peito. Eu sorri de dor, puxei por ela, agarrando-lhe a cabeça. O seu sangue caiu em mim, enquanto eu abria mais o seu pescoço.
- Acabou. – Disse, levantando-me com cuidado e deitando-me. Sentia sono, estava cansada. E, agora, podia finalmente descansar. Estava livre.

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